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A banalidade do mal e o comportamento ético humano - por Anderson Sousa

A banalidade do mal e o comportamento ético humano - por Anderson Sousa




05/09/18 02:36 - Atualizado em 10/09/18 14:32

Muitas vezes superestimamos o nosso comportamento ético, não acreditamos no potencial que pode acontecer. Essa hipocrisia moral faz com que agimos além dos nossos padrões normais. É até anormal trazer a reflexão de que grande parte das coisas erradas são cometidas pelas pessoas boas, isso vem à tona porque essas pessoas ficam eticamente cegas por motivo de pressão ou de uma ordem dinâmica perversa que é inserido.

Relembrando o grande holocausto da segunda guerra mundial, trago a discussão do protagonista oculto que era responsável para encaminhar os judeus para os campos de concentrações para as matanças na câmara de gás, o administrador Adolf Eichmann. Ressalvando que esse cidadão alemão não foi o responsável pela política de matança sistemática, não foi ideia dele, apesar que estava intensamente envolvido na organização que fazia com que essa política funcionasse.

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Adolf Hittler odiava os judeus por vários motivos e promovia várias políticas para matanças e uma dessas era transferir os judeus para os campos de concentrações para serem mortos, enquanto isso Eichmann ficava sentado organizando as papeladas e dando telefonemas, resultando nos transportes e nas mortes dos judeus.

Após a segunda guerra mundial Eichmann conseguiu fugir para a Argentina e alguns anos depois foi encontrado e capturado na capital do país e levado para ser julgado. Nesse momento a filósofa Hanna Arendt queria muito ficar frente a frente com esse acusado querendo entender como ele era e entender como ele podia ter feito coisas terríveis. Nesse sentido, percebeu que Eichmann era uma pessoa comum, uma pessoa normal da sociedade que escolheu não pensar muito no que fazia, essa ausência de pensamento teve desastrosas consequências, em contrapartida ele não aparentava ser nenhum sádico perverso e segunda Arendt ele não era, pelo contrário, era um homem comum.

Observando o período ativo da segunda guerra mundial, notamos que as piores formas de racismo e preconceito se tornaram leis, ou seja, era muito fácil para ele se convencer que estava fazendo a coisa certa. Hitller designou a Eichmann essa oportunidade para organizar a ferrovia e que promoveria sucesso na sua carreira profissional, apesar da consequência do seu trabalho ele sempre afirmava nos seus discursos que estava falando a verdade e complementava que estava apenas seguindo e cumprindo o seu dever.

Diferente de muitos nazistas, Eichmann não sentia ódio por judeus, contudo, aceitou o trabalho nazista para encaminhar milhões de pessoas para a morte. Para ele não considerava tão errado, pois ele não matou diretamente nenhum judeu e nem pediu para alguém fazer isso, ele foi criado para seguir ordens e obedecer às leis e todas as pessoas nazista estavam fazendo a mesma coisa.

Ao executar ordens de outras pessoas ele evitava se sentir responsável pelos resultados do seu trabalho. A partir dessa ideia, Arendt usou a frase a “banalidade do mal” explicando que o mal é banal, ou seja, é comum, e o mal que ela via em Eichmann era de um gerente, de um burocrata e não de uma pessoa má por natureza. Ele era um exemplo de um homem que permitiu que as ideias nazistas afetassem tudo o que fazia.

Para entender melhor o pensamento e comportamento de Eichmann e dos seres humanos na atualidade retratarei um grande experimento científico iniciado no século passado, mais precisamente nas décadas de 60 e 70. Um grupo de cientistas fizeram vários testes experimentais, estudando o funcionamento e a natureza do comportamento humano e sua relação a situações e convenções sociais.

Esse estudo fundamentado por notáveis intelectuais da época teve um grande destaque, o psicólogo Stanley Milgram que tinha uma paixão pessoal por estudos na área de comportamento de grupo e obediência cega a autoridade, costumeiramente nos seus discursos ele indagava as pessoas dizendo: como um ser humano bom age de forma bruta e desumana, sem consciência, sem compaixão, limitando-se de seus sentimentos?

O experimento feito por Milgram, trouxe várias formas de entendermos o nosso funcionamento comportamental. Lembrando que, por razões éticas esse experimento foi proibido. Aconteceu em maio de 1962 num laboratório da universidade de Yale, participaram quarenta homens entre 20 e 50 anos de idade, trabalhadores com variadas profissões. O experimento se inicia quando o responsável diz para os homens que a psicologia afirma que as pessoas aprendem mais quando são punidas severamente, essa informação é uma manobra para saber até que ponto uma pessoa pode chegar.

Os homens, um de cada vez ficavam controlando uma máquina de choque, faziam perguntas para um ator e se o ator não soubesse responder o homem que estava sendo testado apertava o botão do choque e ao passo que o ator não soubesse a resposta o choque acontecia com mais intensidade. No momento do experimento o homem conseguia ouvir apenas os gritos e pedidos do ator para parar (simulação). Poucos desistiram do procedimento, outras pensavam em parar, mas o responsável pelo experimento ressalvava com toda confiança dizendo que tudo o que pudesse acontecer no experimento seria de responsabilidade exclusiva dele e que deveria continuar até onde fosse necessário. Nesse sentido todos os outros continuaram até a suposta morte do ator.

Com base nos dois relatos acima conclui-se algo extremamente concreto, preocupante e incomum. Podemos afirmar que os nazistas no período da segunda guerra mundial não eram psicopatas, loucos, doentes mentais, lunáticos, alucinados, que poderiam fazer uma chacina em qualquer lugar que estivesse, mas sim pessoas comuns, trabalhadores e cidadãos, eles eram mandados e não se sentiam responsáveis pelos acontecidos, assim como no experimento eles estavam com os botões (armas) no seu comando, mas se sentiam inocentes, pois era os comandantes que eram os responsáveis.

Frequentemente a nossa sociedade sofre muito com isso, os líderes, os gestores, os comandantes, os políticos por muitas vezes fazem pedidos antiéticos e imorais a seus subordinados, como desvio de verbas públicas, roubos, desvio de materiais de órgãos públicos, mentiras, fraudes, e dentre outras ilegalidades e seus subordinados a cometem pelo motivo de pensarem que estão sendo ilesos, pois o pedido e a responsabilidade é de seus líderes.

Contudo, tenhamos cuidado no que somos postos a fazer no trabalho ou na vida cotidiana, o fato de não ser o responsável por algum erro não significa que possa cometê-lo. Sem embargos, finalizo afirmando que conhecer e aceitar nossas limitações humanas e a força que o comportamento pode exercer no contexto inseridos, faz-se o nosso potencial ético.

Texto escrito por Anderson Sousa - formado em Filosofia e Pedagogia.
Esp. Em educação Global e coordenador da Faculdade FEMAF. Especialista também em Psicopedagogia e Gestão Escolar. Mestrando em Ciências da Educação.



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