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Quando a violência entra na escola

A escola sempre foi um espaço de conflitos. O problema começa quando perdemos a capacidade de resolver esses conflitos pelo diálogo e passamos a aceitar a agressão como uma possibilidade de resposta.

Márcio Neri Braga Rodrigues
Por: Márcio Neri Braga Rodrigues
24/09/2026 às 14h59

Uma professora entra em uma sala de aula. Como faz todos os dias. Talvez tenha preparado a aula na noite anterior, chegado mais cedo para organizar o material, corrigido atividades ou pensado em uma maneira melhor de explicar determinado conteúdo. São gestos comuns da profissão docente, daqueles que quase nunca aparecem quando falamos sobre educação, mas que fazem parte da rotina de quem escolheu ensinar.

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Na noite de 11 de setembro, porém, uma professora de uma escola pública de Cametá, no Pará, viveu uma situação que nenhum profissional da educação deveria precisar imaginar antes de entrar em uma sala de aula. Uma aluna a atacou com uma faca dentro da própria sala. A professora foi ferida nas costas, precisou ser encaminhada ao hospital e recebeu atendimento médico. As circunstâncias e a motivação da agressão ainda estão sendo apuradas pelas autoridades.

O episódio poderia ser apenas mais uma notícia entre tantas outras que chegam diariamente. Mas não é. Ele aconteceu em um ambiente que deveria representar segurança, aprendizagem e convivência, e se soma a outros casos recentes de agressões contra professores e estudantes que vêm ganhando espaço no noticiário brasileiro.

O que está acontecendo dentro das nossas escolas?

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A escola sempre foi um espaço de conflitos. Crianças e adolescentes estão em processo de formação, aprendendo a conviver com diferenças, frustrações, limites e opiniões que nem sempre coincidem com as suas. O conflito, portanto, faz parte da convivência humana e não precisa ser visto como algo necessariamente negativo. O problema começa quando perdemos a capacidade de resolver esses conflitos pelo diálogo e passamos a aceitar a agressão como uma possibilidade de resposta.

É nesse ponto que os dados começam a revelar uma realidade preocupante. Uma pesquisa realizada pela Nova Escola em parceria com o Instituto Ame Sua Mente, em 2023, ouviu 2.752 educadores e mostrou que oito em cada dez haviam sofrido algum tipo de agressão no ambiente escolar, um crescimento de 20% em relação ao levantamento realizado no ano anterior. A violência verbal foi a mais frequente, seguida pela violência psicológica e moral. Mais da metade dos professores também afirmou sentir medo pela própria integridade física ao precisar repreender um aluno.

Esses números precisam ser compreendidos para além da agressão física. Nem toda violência deixa marcas visíveis no corpo. Algumas deixam marcas na autoestima, na segurança emocional e na própria relação que o profissional estabelece com o trabalho. Um professor pode não precisar de atendimento médico depois de ser humilhado diante de uma turma, ameaçado por um estudante ou exposto nas redes sociais, mas isso não significa que aquela experiência não produza consequências.

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A violência verbal, a intimidação, as ameaças, as ofensas, a exposição e o constrangimento também alteram o ambiente escolar. Quando um professor começa a pensar duas vezes antes de chamar a atenção de um estudante porque teme uma reação agressiva, alguma coisa importante já foi perdida: a possibilidade de exercer sua autoridade pedagógica com segurança.

A TALIS 2024, pesquisa internacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), reforça essa preocupação. No Brasil, 47% dos professores apontam a intimidação ou o abuso verbal praticado por estudantes como uma fonte de estresse no trabalho, percentual muito superior à média dos países participantes da pesquisa.

Estamos, portanto, diante de uma situação que não pode ser explicada apenas pelos episódios extremos que chegam aos jornais. Existe uma violência cotidiana, muitas vezes silenciosa, que se manifesta nas relações e que vai desgastando pouco a pouco aqueles que deveriam estar concentrados em uma tarefa fundamental: ensinar.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das dimensões mais preocupantes desse problema. O professor também está cansando de lutar contra aquilo que deveria ser exceção, mas que começa a aparecer como parte da rotina.

Uma pesquisa do Instituto Semesp, divulgada em 2024, revelou que 79,4% dos professores da educação básica entrevistados já haviam pensado em desistir da carreira. Além disso, 67,6% disseram sentir-se inseguros, desanimados ou frustrados em relação ao futuro profissional. É importante destacar que a violência não aparece isoladamente como causa desse desencanto. Os docentes também apontaram a falta de valorização, a indisciplina e o desinteresse dos estudantes, a ausência de apoio e o pouco reconhecimento social da profissão.

Ainda assim, seria impossível ignorar a relação entre essas questões. Um profissional que precisa lidar diariamente com indisciplina, desrespeito, cobranças, falta de reconhecimento e, em alguns casos, ameaças e agressões físicas, pode chegar a um ponto em que começa a questionar se vale a pena continuar.

E isso deveria preocupar toda a sociedade.

Estamos discutindo há anos a falta de professores, a dificuldade de atrair jovens para as licenciaturas e o chamado apagão docente. Mas existe uma pergunta anterior a todas essas discussões: quem vai querer permanecer em uma profissão na qual, além de todas as dificuldades, pode sentir medo de entrar em uma sala de aula?

Não podemos, entretanto, transformar essa discussão em uma simples procura por culpados. Dizer que “os alunos estão violentos” não explica um fenômeno tão complexo. Da mesma maneira, responsabilizar exclusivamente as famílias ou afirmar que a escola perdeu sua autoridade não é suficiente para compreender o que está acontecendo.

A violência escolar nasce de uma combinação de fatores. Existem conflitos familiares, situações de vulnerabilidade social, bullying, dificuldades emocionais, exposição cotidiana à violência, problemas de convivência, influência das redes sociais e dificuldades para lidar com frustrações e limites. Existem também escolas que nem sempre dispõem de profissionais, formação ou estratégias suficientes para prevenir e mediar esses conflitos antes que eles se agravem.

Por isso, precisamos olhar para o problema antes que ele chegue à agressão física. A violência não começa necessariamente quando alguém pega uma faca. Muitas vezes, ela começa muito antes, em uma palavra, uma humilhação, uma ameaça que não foi levada a sério ou um conflito que ninguém conseguiu perceber e mediar.

Quando finalmente aparece o sangue, talvez estejamos diante apenas do último capítulo de uma história que começou muito antes.

Também precisamos reconhecer que proteger o professor não significa deixar de compreender o aluno. E compreender o aluno não significa aceitar a violência. É possível reconhecer que um estudante pode estar sofrendo, carregando conflitos, enfrentando dificuldades emocionais ou vivendo situações de violência e, ao mesmo tempo, afirmar com absoluta clareza que agredir outra pessoa é inaceitável.

A escola precisa ser capaz de fazer essas duas coisas: compreender e proteger.

Precisamos ensinar nossos estudantes a lidar com a frustração, aceitar limites, respeitar diferenças, ouvir opiniões contrárias e buscar ajuda quando não conseguem resolver um conflito. Mas não podemos colocar toda essa responsabilidade sobre os ombros do professor. O docente não pode ser, ao mesmo tempo, responsável pela aprendizagem, mediador de conflitos, orientador emocional, assistente social, psicólogo e profissional encarregado de suportar agressões como se elas fossem parte natural da profissão.

Não são.

E não podemos esquecer dos estudantes. Uma escola violenta não prejudica somente o professor que foi agredido. Ela também afeta aqueles que assistem à agressão, os alunos que passam a sentir medo, os profissionais que trabalham naquele ambiente e toda a comunidade escolar. Quando a violência se torna frequente, ela modifica o clima da escola e interfere justamente naquilo que deveria estar no centro de sua existência: a aprendizagem.

Talvez seja por isso que precisemos parar de tratar segurança, respeito e convivência como questões secundárias. Não existe aprendizagem significativa em um ambiente dominado pelo medo. Antes de ensinar conteúdos, a escola precisa oferecer condições para que crianças, adolescentes e professores possam estar naquele espaço com segurança física e emocional.

A escola não pode desistir de ensinar convivência justamente quando a sociedade mais precisa aprender a conviver. Precisamos fortalecer o diálogo com as famílias, preparar profissionais para a mediação de conflitos, criar estratégias de prevenção, oferecer apoio aos professores e estabelecer limites claros para comportamentos violentos. A autoridade pedagógica não pode ser confundida com autoritarismo, mas também não pode desaparecer em nome de uma falsa ideia de que estabelecer limites é uma forma de violência.

Durante muito tempo, pensamos a escola como o lugar onde aprendemos conteúdos, desenvolvemos habilidades e nos preparamos para o futuro. Mas a escola também é um dos primeiros grandes espaços de convivência social que uma criança experimenta. É ali que ela aprende, na prática, que o outro existe, que existem diferenças, que nem sempre terá aquilo que deseja e que conflitos podem ser resolvidos sem que alguém precise ser ferido.

Quando essa aprendizagem falha, o prejuízo ultrapassa os muros da escola.

Porque uma geração que aprende que gritar é mais eficiente do que dialogar, que humilhar é uma forma de vencer uma discussão e que a força pode substituir o argumento levará essas referências para outros espaços da sociedade.

Por isso, a violência dentro da escola não é apenas um problema da educação. É um problema de futuro.

Quando um professor é agredido, não é apenas um profissional que está sendo ferido. Quando um estudante é humilhado, ameaçado ou agredido, não é apenas aquele aluno que sofre. Quando uma escola começa a conviver diariamente com o medo, é a própria ideia de escola como espaço de aprendizagem e convivência que começa a ser comprometida.

Talvez seja hora de perguntarmos não apenas como punir depois que a violência acontece, mas o que podemos fazer para que ela não aconteça.

Porque, se a escola deixar de ser um lugar seguro para aprender, conviver e crescer, que tipo de sociedade estaremos preparando para as próximas gerações?

Márcio Neri
Professor, escritor e palestrante. Pesquisador da relação entre emoções e aprendizagem. Autor do livro O que sentem os alunos que aprendem?.

Instagram: @marcioneribr

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Além da Sala de Aula, proponho reflexões sobre o que realmente influencia a aprendizagem, emoções, relações e saúde mental no ambiente escolar. Um olhar humano e científico sobre os desafios da educação atual.
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